quarta-feira, 13 de agosto de 2008

O amor por entre o verde, de Vinícius de Moraes

Não é sem freqüência que, à tarde, chegando à janela, eu vejo um casalzinho de brotos que vem namorar sobre a pequenina ponte de balaustrada branca que há no parque. Ela é uma menina de uns treze anos, o corpo elástico metido num blue jeans e num suéter folgadão, os cabelos puxados para trás num rabinho-de-cavalo que está sempre a balançar para todos os lados; ele, um garoto de, no máximo, dezesseis, esguio, com pastas de cabelo a lhe tombar sobre a testa e um ar de quem descobriu a fórmula da vida. Uma coisa eu lhe asseguro: eles são lindos, e ficam montados, um em frente ao outro, no corrimão da colunata, os joelhos a se tocarem, os rostos a se buscarem a todo momento para pequenos segredos, pequenos carinhos, pequenos beijos. São, na extrema juventude, a coisa mais antiga que há no parque, incluindo velhas árvores que por ali espapaçam sua verde sombra; e as momices e brincadeiras que se fazem dariam para escrever todo um tratado sobre a arqueologia do amor, pois tem uma tal ancestralidade que nunca se há de saber a quantos milênios remontam.
Eu os observo por um minuto apenas para não perturbar-lhe os jogos de mão e misteriosos brinquedos mímicos com que se entretêm, pois suspeito de que sabem de tudo o que se passa à sua volta. Às vezes, para descansar da posição, encaixam-se os pescoços e repousam os rostos um sobre o ombro do outro, como dois cavalinhos carinhosos, e eu vejo então os olhos da menina percorrerem vagarosamente as coisas em torno, numa aceitação dos homens, das coisas e da natureza, enquanto os do rapaz mantêm-se fixos, como a perscrutar desígnios. Depois voltam à posição inicial e se olham nos olhos, e ela afasta com a mão os cabelos de sobre a fronte do namorado, para vê-lo melhor, e sente-se que eles se amam e dão suspiros de cortar o coração. De repente o menino parte para uma brutalidade qualquer, torce-lhe o pulso até ela dizer-lhe o que ele quer ouvir, e ela agarra-o pelos cabelos, e termina tudo, quando não há passantes, num longo e meticuloso beijo.
Que será, pergunto-me eu em vão, dessas duas crianças que tão cedo começam a praticar os ritos do amor? Prosseguirão se amando, ou de súbito, na sua jovem incontinência, procurarão o contato de outras bocas, de outras mãos, de outras mãos, de outros ombros? Quem sabe se amanhã, quando eu chegar à janela, não verei um rapazinho moreno em lugar do louro ou uma menina com a cabeleira solta em lugar dessa com os cabelos presos?
E se prosseguirem se amando, pergunto-me novamente em vão, será que um dia se casarão e serão felizes? Quando, satisfeita a sua jovem sexualidade, se olharem nos olhos, será que correrão um para o outro e se darão um grande abraço de ternura? Ou será que se desviarão o olhar, para pensar cada um consigo mesmo que ele não era exatamente aquilo que ela pensava e ela era menos bonita ou inteligente do que ele a tinha imaginado?
É um tal milagre encontrar, nesse infinito labirinto de desenganos amorosos, o ser verdadeiramente amado… Esqueço o casalzinho no parque para perder-me por um momento na observação triste, mas fria, desse estranho baile de desencontros, em que freqüentemente aquela que devia ser daquele acaba por bailar com outro porque o esperado nunca chega; e este, no entanto, passou por ela sem que ela o soubesse, suas mãos sem querer se tocaram, eles olharam-se nos olhos por um instante e não se reconheceram.
E é então que esqueço de tudo e vou olhar nos olhos de minha bem-amada como se nunca a tivesse visto antes. É ela, Deus do céu, é ela! Como a encontrei, não sei. Como chegou até aqui, não vi. Mas é ela, eu sei que é ela porque há um rastro de luz quando ela passa; e quando ela me abre os braços eu me crucifico neles banhado em lágrimas de ternura; e sei que mataria friamente quem quer que lhe causasse dano; e gostaria que morrêssemos juntos e fôssemos enterrados de mãos dadas, e nossos olhos indecomponíveis ficassem para sempre abertos mirando muito além das estrelas.

terça-feira, 1 de julho de 2008

Um pouco de poesia














Revirando alguns papéis antigos, jogando fora uns mais antigos ainda, me deparei com belas cartas de Drummond para Lygia Fagundes Telles. Quanta poesia...


"Você sabia que a lua
ainda não foi visitada?
que há sempre uma lua nova
dentro da outra, e encantada?

É lá que vivem as graças
que nesta quadra do ano
a gente sonha e deseja
a todo o gênero humano.

Mas a lua, preguiçosa,
nem sempre atende à pedida?
a gente sonha assim mesmo,
até melhorar a vida.


Oi, Lygia querida, os desejos são os da vida inteira: paz e saúde para você e seu povinho, e novos contos e romances de Você para alegria nossa.
Rio, XII,1969
Carlos"

Lygia, querida e lembrada:
Pois é. Passou o dia chato e ficaram as boas lembranças. Estou ouvindo João Gilberto e me sentindo ao lado de você. A pomba chilena faz companhia à gente, e releio "Negra jangada amarela", de tão funda ressonância intimista. Que bom, Lygia. Saber você minha amiga, minha irmã, no meio de tanta confusão e tanto desencontro desta vida.
Obrigado pelo que você é, pelo que você representa para mim: claridade.
Um beijo e todo o carinho do
Carlos

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Quero ter tempo livre...

Quero ter tempo livre para pensar bobagens
falar amenidades
fazer viagens
ler futilidades
ver paisagens
e amar por toda a eternidade

Quero ter tempo livre pra sonhar
pra mergulhar no mar
pra começar e recomeçar
dançar e cantar
e chegar a algum lugar

Quero ter tempo livre pra mim
pra curtir o curto tempo que é a vida
que passa tão rapidamente pela gente
e que pede pra ser vivida.

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Fragmentos...

"Acho as lágrimas muito cheias de dizeres. Elas moram dentro da gente e aliviam as dores que também moram dentro da gente. Não sei por que elas não curam a dor antes de a dor doer. Mas vou deixar para falar de lágrimas depois. Chorar cansa! Depois de muita lágrima há que dormir um longo sono. Agora não quero dormir. Minhas tristezas estão maduras. Só tristezas verdes precisam de água para crescer. Também não sei a cor das tristezas maduras. Devem ser transparentes."

"Eu não gosto dos crepúsculos ou das madrugadas. São momentos indecisos e fáceis de trazer tristeza. Na madrugada sinto como se a noite tivesse preguiça de nos deixar e o dia, preguiça de começar, e eu, com medo de crescer. No crepúsculo são as nuvens embaçando tudo. Crepúsculo é como uma estação onde muitos partem e muitos chegam. Todos ficam no meio do caminho. Saíram e ainda não chegaram. Dói muito esse lento instante."


"Eu amava meus avós. Compreendia o que faltava e o que sobrava em cada um deles. Para minha avó faltava amor e para meu avô sobrava paixão. Eu distribuía, em partes iguais, o meu afeto.Quando a imensa solidão pesava sobre minha avó, eu me assentava ao seu lado, segurando sua mão, sem dizer nada. Toda palavra seria inútil. Ela correspondia meu carinho com mais carinho. Deixava exalar uma cantiga tão baixinho que eu precisava abrir bem os ouvidos. Sua voz era mais doce que os suspiros que ela assava em forno brando e que desmanchavam no céu da minha boca.
Jamais pedi ao meu avô que levasse com ele em seus passeios pela tarde. Não pensava em invadir seu destino nem destrancar seu coração. Percebendo minha cumplicidade, ele se aproximava de mim e passava a mão em minha cabeça, como se benzendo ou abençoando meus pensamentos. Meu avô estava sempre me lendo!"


"A casa do meu avô era silenciosa. Todas as palavras tinham sido ditas. Nada mais mudava do lugar. Mesmo no escuro se podia encontrar uma agulha na gaveta do criado que também era mudo. Uma casa sem palavras é uma casa vazia. Palavra povoa tudo. Corta o silêncio e, aonde chega, fica. Se a gente escreve, pode apagar, mas, se falamos, fica impossível recolher as palavras. Palavra é como borboleta, bate as asas e voa. Palavra não nasce em árvore, ela brota no coração. A gente sabe que ela tem cor, porém cada uma guarda uma ilusão. No alpendre da casa do meu avô havia três borboletas presas na parede. Suas asas eram de louça dura. Elas não partiam. Para voar é preciso asas leves e muito vazio pela frente. Para falar é preciso ter o que dizer."

"Meu pai dirigia um caminhão muito grande e bonito. Viajava para longe, levando manteiga para as cidades que só produziam pão. Bom Destino tinha pão e manteiga. Passava dias distantes e voltava trazendo uma carroceria de notícias. Eu ficava impressionado como era grande o mundo do meu pai. Ele colocava um travesseiro sobre seus joelhos, me assentava em cima e me entregava o volante para eu dirigir. Naquele tempo eu não sabia nem frear meus pensamentos. Tinha só duas pernas; imagina dirigir um caminhão com dez rodas.
Depois, como seria possível eu aprender a dirigir, se minha alegria eram as paisagens! No caminhão havia um espelho de lado. Eu apreciava ver meu pai olhando para a frente e correndo os olhos sobre o que estava atrás. Nesses momentos ele possuía muitos olhares."


(Fragmentos do livro O olho de vidro do meu avô, de Bartolomeu Campos de Queirós.)

terça-feira, 17 de junho de 2008

apesar de tudo

"apesar de todos os livros escritos,
todas as sentenças filosóficas,
todas as análises terapêuticas e
todos os exemplos de paixões falidas,
continuamos amando"
M.M

quinta-feira, 12 de junho de 2008















"É necessário abrir os olhos e perceber que as coisas boas estão dentro de nós, onde os sentimentos não precisam de motivos nem os desejos de razão. O importante é aproveitar o momento e aprender sua duração, pois a vida está nos olhos de quem sabe ver"

(Gabriel Garcia Marquez)

Tempo sem tempo

"vê se encontra um tempo
pra me encontrar sem contratempo
por algum tempo
o tempo dá voltas e curvas
o tempo tem revoltas absurdas
ele é e não é ao mesmo tempo
avenida das flores
e a ferida das dores
e só então
de sopetão
entro e me adentro no tempo e no vento
e abarco e embarco no barco de ísis e osíris
sou como a flecha do arco do arco do arco-íris
que despedaça as flores mais coloridas
em mil fragmentos
que passa e de graça distribui amores de cristais
totais sexuais celestiais
das feridas das queridas despedidas
de quem sentiu todos os momentos"

(Parceria de Zé Miguel Wisnik e Jorge Mautner )

segunda-feira, 9 de junho de 2008

arrumando a casa de dentro...

Vou mudar tudo de lugar:
os sonhos, a saudade, os desejos...
Vou aproveitar alguns sentimentos,
jogar fora algumas lembranças,
guardar algumas palavras,
deixar espaço para os aplausos
e fechar as portas para os aborrecimentos.
Mas vou abri-las sempre para as emoções.
Vou colorir cada cantinho.
O cantinho do silêncio, do amor, da amizade,
da tristeza e da alegria.
As janelas ficarão escancaradas para a sorte entrar
e é claro
um coração pousar.


domingo, 1 de junho de 2008

Navegando...

Passeando por textos de Rubem Alves, me deparei com um chamado "Baixou o espírito do Drummond" e algumas palavras me chamaram a atenção.

"Amigo não empata amigo. A amizade cuida da liberdade do outro. Um amigo é um mestre em escutar, um mestre em adivinhar e um mestre em guardar silêncio. Um amigo conhece o sentido da palavra "não". O "não" é a palavra que estabelece os meus limites, limites que não podem ser invadidos, nem mesmo com a desculpa do amor. "


sigo a cartilha...

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Por Paulo Leminski

Poesia
Vende-se
Um livro de literatura (seja lá o que isso queira significar) é a mais singular das mercadorias. Quando compra uma caixa de sabão em pó, você sabe que, no mínimo, aquele produto vai deixar sua roupa mais branca, uns mais, outros menos. No caso do livro de literatura, a situação é bem diversa. Ao comprar um romance, você quase não sabe nada sobre ele. Será emocionante? Será tedioso? Quem sabe, um grande romance, mas para outras pessoas que não eu. Os riscos aumentam extraordinariamente quando você compra um livro de poemas. Aí sim você está no mato sem cachorro. No início do século, não, você pisava em terreno seguro. Poesia era caixinha de bombons chamada soneto, um pedaço bem cortado de frases enfeitadas, que emitia sempre o mesmo plim. Como um canário na gaiola ou uma caixinha de música. Nos tempos de Bilac (final do século XIX), você sabia o que comprava. Nos anos 20 (do século XX), os modernistas de São Paulo, influenciados por doutrinas alienígenas, dinamitaram a central elétrica. E, em lugar do verbo agradar, passaram a conjugar o verbo agredir. De lá pra cá, as coisas se tornaram nebulosas. A literatura era uma certeza e uma tranqüilidade. O Modernismo transformou em problema. De agora em diante, cada escritor tem que viver, em si mesmo, todo o processo da literatura, de Homero até o best-seller de ontem à tarde. Os mapas se perderam. As pistas foram apagadas. E as tábuas de lei voltaram ao pó donde vieram. As ordens voltaram ao caos primordial. Não há mais normas. Cada um está condenado a ser o próprio legislador. E ao confeccionar sua própria receita, programar, sozinho, seu próprio processo de criação. Ser o único responsável pelo software da sua produção. Ao contrário do que dizem, a poesia concreta paulista, nos anos 60, ampliou ainda mais o indeterminado dessa liberdade, sabe Deus se bênção ou maldição. Liberdade de escrever no plano e até no volume (e não mais apenas na linha). Liberdade de construir novos vocabulários, novas grafias, novas sintaxes. Não há outro jeito. A crise virou substância. Poesia viva, hoje, é a que já nasce se perguntando: - Poesia, ah, poesia, que diabo isso quer dizer? (Por falar nisso, alguém aí quer comprar a minha crise?)